E por falar em nova ordem mundial, aqui a gente trata deste tema na música. O Jazzmasters traça um mapa global da black music em transformação: do neo-soul australiano ao broken beat britânico, do fresh funk texano ao mashup blaxploitation inglês, passando por jazz-hip hop do Brooklyn e o soul vintage americano. É um set pensando para equilibrar inovação e reverência

Abrimos com Tentendo feat. Annalisa Fernandez – Morning Light com o produtor de Melbourne, expoente do neo‑soul local à la Kaytranada, unindo baixo synth e harmonias de Badoo. WheelUP feat. Sio – Best You vem com Danny Wheeler no broken beat de West London, ritmos jazz/dub sustentados pelo vocal etéreo da sul‑africana Sio. Jersey Street – Love Rising Up fecha o trio inicial com o soulful house do norte da Inglaterra: grupo pioneiro do selo Nuphonic desde os anos 90, liderado pela voz sublime de Dawn Zee, o remix de Sullivan destaca piano e balanço gospel, traçando paralelos entre Roy Ayers, Rotary Connection e Anderson .Paak, como uma ponte entre house orgânica e neo‑soul contemporâneo.

No bloco seguinte, o programa ganha textura underground. Rhythm&Truth feat. Sakari – Leaving the Party traz Daniel Anstandig, baterista e produtor de Austin que transita do R&B ao funk puro, unindo‑se à voz de Sakari, gospel de Chicago que fez backing para Lizzo, Al Green e Chance the Rapper. Relyae – Unknown chega com ares do Brooklyn: multi‑instrumentista da nova guarda jazz‑hip hop, ele usa guitarra dedilhada à George Benson e belas harmonias. Phoebe Rings – Fading Star desembarca diretamente da Nova Zelândia com Alex Freer e Crystal Choi construindo camadas de synths e guitarra valvulada que fundem o pop com a complexidade da black music.

O nosso segundo set pulsa com alma vintage e reinvenção. The Jack Moves – Candyland, do duo de Newark Zee Desmondes e Teddy Powell, resgata o sweet soul dos anos 60/70 com falsetes e calor analógico à la Stax/Motown, pintado pela narrativa litorânea e jack swing da cidade natal. Aqui entra o grande destaque, Hallmighty – What Is Stormy Love, mashup genial de Norwich: o DJ e radialista local, envolvido em música desde sempre, cria uma fusão impecável de Haddaway com Diana Ross & The Supremes que soa como single original de blaxploitation dos anos 70 – bateria seca, baixo hipnótico, reinventando soul vintage com produção 2024. Diana Ross & The Supremes – Stormy (Andy Kidd Cut Edit) complementa perfeitamente: clássico das Supremes na era Diana Ross em transição, editado por Kidd para limpar a orquestração e realçar a interpretação emocional de “tempestade” que influenciou Beyoncé e Solange, ouvida com cabeça aberta como lição de sofisticação vocal.

Fechando, o programa celebra resiliência e elegância. Calvin Richardson – Across 110th Street tem o “Príncipe do Soul” reinterpretando Bobby Womack com timbre rústico, mantendo a crítica social das ruas de Nova York num R&B visceral que ele mesmo escreveu hits para Raphael Saadiq e Angie Stone. Cornell C.C. Carter – Lift It Up (Radio Version) traz o veterano de San Francisco num hino de empoderamento à la Al Jarreau e Luther Vandross, com extensão vocal que une espiritual e secular na levada de Womack. Splendor – Special Lady encerra com o funk/soul dos anos 70: banda com Billy e Bobby Nunn, arranjada por Philip Bailey do Earth, Wind & Fire, oferecendo baixo preciso, synths brilhantes e harmonia que celebra amor e mulher como Raydio ou Atlantic Starr. É um final que lembra: a black music de ontem ainda dita o ritmo de hoje.
Ainda não ouviu?? Ouça o Jazzmasters aqui.
Lançado em maio de 2025, o vídeo de Phoebe Rings – Fading Star é uma produção minimalista dirigida por Alex Freer (baterista/produtor do grupo) em colaboração com a cineasta neozelandesa Ella Tomkowicz. É dream pop com raízes black music. Gravado com equipamentos vintage, mostra a banda neozelandesa de Auckland – liderada pela vocalista/tecladista Crystal Choi, com Alex Freer na bateria/percussão, Ben Locke no baixo e Simeon Kavanagh‑Vincent na guitarra – entregando uma versão etérea e cintilante da faixa.
Assista aqui: