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Entre Professores do Soul Neste Jazzmasters, Michael Jackson Mostra Que Foi Excelente Aluno

Este Jazzmasters é um daqueles programas que funcionam como uma aula informal de história da Black Music, jamais didático. Ele conecta boogie, soul clássico, funk politizado, disco, edits contemporâneos e a nova geração que entende groove. Cada faixa conversa com a anterior e prepara a próxima, criando uma linha invisível entre passado, presente e futuro ao estilo Jazzmasters.

Foto: Mondo Freaks

Radiance surge como um retrato perfeito do boogie sofisticado do início dos anos 80, quando a Europa absorveu o soul americano e devolveu com acabamento refinado. “You’re The Number 1” carrega uma linha de baixo que ecoa a tradição de McFadden & Whitehead, mas ganha identidade própria com o vocal seguro e cheio de classe de Andrea Stone. Em seguida, Curtis Mayfield entra como coluna moral e musical do programa. “Do It All Night” mostra um Mayfield menos panfletário e mais grooveiro, mas ainda assim consciente. Já o Mondo Freaks fecha apontando para o agora: um coletivo que entende profundamente o funk de fim dos anos 70 e início dos 80 e o atualiza sem cinismo, com banda grande, energia coletiva e mensagem de esperança.

Foto: Ernie Hines

Ai a gente mergulha no soul como ferramenta de identidade e transformação. Ernie Hines representa o auge do soul espiritual e politizado da Stax, e “Our Generation” segue sendo um chamado direto à juventude, mesmo meio século depois. O re-edit apenas amplia sua força para o presente, sem apagar a mensagem. Jackie Wilson aparece logo depois como pura intensidade vocal. Sua leitura soul de “Light My Fire” transforma psicodelia em drama negro, antecipando a liberdade estética que décadas depois seria comum no hip hop e nos edits de DJ. Al Green fecha esse bloco como o mestre absoluto da fusão entre sensualidade e fé. “Take Me To The River” é quase um sermão dançante — tão poderoso que atravessou gerações e estilos, do soul sulista ao new wave, sem perder significado.

Foto: Izzy Marinucci

O nosso segundo set muda o eixo para o groove contemporâneo, mas sem romper com a tradição. Alex Cherney, The Brothers Nylon e Izzy Marinucci entregam em “30 SPF” um soul relaxado, com filtro, lembrando que música negra também é descanso e prazer. Save The Robots entra logo depois com “Groove On”, faixa de DJ no melhor sentido da palavra: funcional, direta, respeitosa com o boogie e a disco, sem nostalgia gratuita. A participação vocal do mexicano Winkar cumpre exatamente seu papel, dar ritmo. Michael Jackson fecha lembrando quem ele sempre foi no fundo: um cantor de soul excepcional. “Baby Be Mine”, uma das joias menos óbvias de Thriller, revela o diálogo profundo com o jazz e o bebop que Quincy Jones fazia questão de preservar. O edit apenas amplia o balanço de algo que já era perfeito.

Foto: Steven Bamidele

Nas nossas três últimas o programa olha para frente sem perder o chão. Evil Needle e Misha trazem uma estética mais introspectiva, onde o groove encontra o silêncio e a melancolia do beat culture contemporâneo. “Overseas” fala de deslocamento e distância, refletindo um mundo em constante trânsito emocional. Então surge Roy Ayers — não apenas como artista, mas como conceito. “Searching” é o coração espiritual do programa. Vibrafone quente, groove elegante, música feita para dançar e pensar ao mesmo tempo. Roy Ayers nunca pertenceu a uma era específica; ele construiu uma linguagem que artistas ainda tentam alcançar. Sua presença aqui explica tudo o que veio antes e justifica tudo o que vem depois. O encerramento com WheelUP e Steven Bamidele aponta para a continuidade dessa linhagem: neo-soul consciente, britânico, conectado ao broken beat e à herança negra global. “Take My Word” não fecha o programa, deixa o ouvinte querendo mais, como toda boa música deve fazer.

Ainda não ouviu? Ouça o Jazzmasters aqui.

“Take Me To The River”, lançada por Al Green em 1974, é uma das canções mais elegantes já escritas sobre desejo e redenção, tudo ao mesmo tempo. Com produção refinada de Willie Mitchell na Hi Records, a música usa a imagem do rio como metáfora, e bem ambígua: pode ser batismo, purificação espiritual ou simplesmente entrega amorosa. Essa dualidade é a assinatura de Al Green, sempre caminhando na linha fina entre o sagrado e o profano.

Assista ao vídeo da faixa, com Al Green ao vivo:

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