Quando bati o olho na programação pronta, pensei: é uma aula informal de história da Black Music. Claro que não no sentido acadêmico, mas naquele formato que nosso mestre DJ Chico Aleixo sempre dominou: conectar épocas, pistas de dança, estúdios e ruas como se tudo fizesse parte de um mesmo grande fluxo de cultura. Aqui, a Disco, Soul e o Jazz não são nostalgia ou arquivos de museu, tudo funciona pra mostrar como esses movimentos pulsam em permanente mudança. Do funk eletrônico pós-Studio 54 às batidas conscientes do jazz-hop atual, o programa tem essa costura de ancestralidade, modernidade e uma visão do futuro dessa música que adoramos, com um fio condutor claro: o groove.

As três primeiras faixas abrem esse arco histórico mostrando como o início dos anos 80 e 90 já ensaiava mudanças profundas. Quando o Village People, sem aquelas roupas características, grava “Radio Freak”, em 1982, o grupo tenta se libertar da caricatura que o consagrou. Sob a produção de Jacques Morali, o mesmo arquiteto da era disco, surge um funk eletrônico tenso, quase new wave, que dialoga mais com o futuro do que com o passado. É um desses momentos injustamente esquecidos, mas que hoje soam como laboratório para o que Prince faria poucos anos depois. Em seguida, CeCe Peniston entra como símbolo absoluto da virada dos anos 90: vinda do gospel, ela traduz emoção espiritual em pista de dança. “Keep On Walkin’” é Diva House com alma, técnica vocal de igreja aplicada a um formato pop que dominaria rádios e clubes. Fechando o bloco, o canadense Nightlife Unlimited lembra que Montreal foi tão importante quanto Nova York na era disco. “Let’s Do It Again”, de 1980, é high energy com arranjo preciso e break pensado para DJ — música feita para durar, e durou.

Até o final do nosso primeiro Set, o programa desacelera para aprofundar raízes. Jay Dee, nome que atravessa décadas sob diferentes identidades como Earl Nelson e Jackie Lee — aparece como peça fundamental da escola Barry White de produção: sensual, orquestral e profundamente negra. “I Can’t Let You Go” carrega esse DNA de sofisticação emocional. Don West traz o contraponto contemporâneo: modern soul feito em 2025, mas com espírito clássico, mostrando que não há contradição entre tecnologia e sentimento. E então Charlie Bereal fecha o bloco como elo definitivo entre passado e presente. “Together” não esconde suas referências — Roy Ayers, Earth, Wind & Fire — porque Bereal entende que tradição não é algo que se carrega como peso, é referência, plataforma. Sua música soa como continuação natural de uma linhagem.

O inicio do segundo Set, recoloca o groove em movimento consciente. No “flow” dos MCs. Planky e Akil the MC, do Jurassic 5, fazem em “Take It Back” um manifesto elegante: boom bap limpo, jazzístico, sem truques. É hip hop como linguagem cultural, não produto descartável. JaRon Marshall e Ric Wilson ampliam esse discurso em Chicago, usando o jazz como ferramenta política, com piano tenso e rima afiada. E então Terrace Martin, ao lado de 9th Wonder, entrega talvez a síntese perfeita do jazz-hop contemporâneo: música que pensa, acolhe e provoca. Martin confirma seu papel como ponte definitiva entre Compton, o jazz de vanguarda e a estética Quincy Jones do século XXI.

Na reta final, o programa olha para frente sem perder a elegância. Dionne Bromfield, ao lado do Blue Lab Beats, representa o novo soul britânico: fragmentado, experimental, urbano, mas ainda profundamente emocional. E quem ouve, sentirá a sombra luminosa de Amy Winehouse sempre presente. Pharrell Williams surge como provocador máximo: em “Cheryl”, ele injeta swing negro em um gênero historicamente branco como o Yacht Rock, mostrando mais uma vez por que sempre esteve alguns passos à frente da indústria. E o encerramento vem com classe absoluta através de Lance Ferguson, guitarrista, produtor e um dos grandes arquitetos do soul-jazz contemporâneo australiano. Conhecido pelo trabalho à frente do The Bamboos e por sua obsessão sonora quase artesanal, Ferguson trata o groove como linguagem nobre. Ao lado da vocalista Rita Satch, ele entrega uma releitura sofisticada, onde cada acorde respira história e intenção. Não é revival, é continuidade. Ferguson representa essa geração rara que entende profundamente o passado da Black Music para conseguir projetar o futuro com a mesma elegância.
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Quando CeCe Peniston lançou “Finally”, em 1991, a House Music deixou definitivamente os clubes underground para ocupar o centro da cultura pop global. A faixa virou um hino imediato porque combinava tudo que a dance music precisava naquele momento: piano contagiante, batida certeira e uma voz poderosa, clara, dessas que não pedem licença, e já vão dominando. O videoclipe, com CeCe cantando, dançando e andando pelas ruas de Los Angeles, reforçou essa sensação de liberdade absoluta: não era sobre glamour, era sobre pertencimento. O álbum “Finally” de 1992 não só marcou a ascensão definitiva da diva house como ajudou a definir o espírito de uma geração que encontrou na pista de dança um espaço de afirmação, alegria e identidade. Trinta anos depois, segue atual, irresistível e necessária e dá o tom desta edição, mostrando porque algumas músicas não envelhecem, elas libertam.
Assista ao vídeo da faixa ‘Keep On Walkin’’ do álbum “Finally”: