Esta edição do Jazzmasters percorre uma linha elegante da nova soul music ao R&B contemporâneo, passando pelo neo-soul alternativo, pelo house sofisticado e pelo acid jazz clássico.

As três primeiras faixas estabelecem um clima de intimidade. Ana Monae, em “Outside” representa essa geração formada no R&B e no neo-soul, mas aberta à experimentação e sua voz carrega aquele calor emocional típico da tradição Philly, segura e natural. Em seguida, “Kettle”, de Ella Frank, surge como um dos momentos mais delicados e inteligentes do programa. A cena londrina de neo-soul e jazz-hop vive um momento criativo raro, e Ella é um de seus nomes mais sofisticados. A produção de Intalekt e R-Kay constrói uma atmosfera rica em detalhes. A metáfora da “chaleira com água” não é casual, fala de propósito, energia vital, combustível interior. E fechando o primeiro bloco, Joomanji com Saara Maria em “Somethin’ Out Of Nothin” traz o espírito coletivo do neo-soul britânico com estética orgânica. Instrumentação ao vivo misturada a samples de vinil cria textura, profundidade e uma certa nostalgia urbana.

As próximas músicas mergulham num terreno mais emocional e refinado. Moonchild, com a participação luxuosa de Lalah Hathaway, herdeira direta da linhagem de Donny Hathaway, em “Tell Him”, entrega um diálogo elegante com a vocalista Amber Navran. Meicha, em “Cry No More (One of These Days)”, representa a cena independente de Nova York, com um pé no hip hop e outro no R&B. É energia urbana pura.
Já “Turning (FloFilz Remix)”, de J.Lamotta, ganha nova vida nas mãos do produtor alemão FloFilz, conhecido por suas batidas lo-fi influenciadas por J Dilla. O remix equilibra piano delicado, groove hip-hop e a voz sedosa de Lamotta.

O segundo set traz uma guinada mais declaradamente R&B. Tank, em “You’re My Star”, reafirma sua defesa do “real R&B”. Com carreira iniciada como backing vocal de Aaliyah e Ginuwine, Tank sempre foi guardião da tradição vocal masculina. Infelizmente, após a perda da audição no ouvido direito, ele deixou de gravar após 2021. Nate James, em “Runaway”, revisita um clássico da disco eternizado pela Salsoul Orchestra e depois pelo Nuyorican Soul — e o transforma em soul britânico elegante. E então chegamos a outro ponto alto do programa: “Need To Feel Wanted”, de Eric Kupper com Peyton. Aqui o destaque é absoluto. Kupper é um arquiteto da house music — parceiro de nomes como Frankie Knuckles e David Morales — e sua transição de tecladista pós-punk a produtor de deep house ajudou a moldar o som das pistas desde os anos 80. Peyton, com sua voz potente e espiritualizada, eleva a faixa a um hino de pista sofisticada. É house direta da tradição gospel e disco. Um momento de catarse elegante.

O bloco final amplia tudo isso. Jennifer Hudson, em “It’s Your World”, reafirma sua potência vocal num R&B festivo produzido por DJ Terry Hunter. Sy Smith, em “Nights”, com participação de Rahsaan Patterson, traz o refinamento do R&B adulto. Encerrando, The Brand New Heavies com “On the One” reafirmam o legado do acid jazz. Ao lado de Jamiroquai e Incognito, formam a trindade do gênero. Em Forward, Jan Kincaid assume os vocais numa faixa que equilibra groove setentista e produção moderna. É o passado revisitado com classe e prova de que certas fórmulas nunca envelhecem quando executadas com musicalidade sem artificialidade.
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Durrell Artaze Babbs, mais conhecido como Tank, mostra a primeira faixa do seu álbum “Stronger” o sexto de estúdio, fazendo uma homenagem ao que ele chama de “R&B de verdade”. Segundo ele, “num momento onde as músicas colocavam a mulher em um subplano, ‘You’re My Star’ colocou a mulher no ponto mais alto”.
Assista ao vídeo da faixa: