O Jazzmasters desta edição se comporta como uma linha do tempo viva da soul music, um arco histórico sutil arquitetado pelo nosso mestre das programações, DJ Chico Aleixo. Abrimos o trabalho ancorados na tradição, passeamos por diversas mutações do groove e fechamos num R&B minimalista que aponta para o futuro.

Mamas Gun liderada por Andy Platts e Jared Grant são o eixo emocional do começo do programa: os britânicos, com “Good Love”, trazem o melhor do modern soul analógico, ecoando Bill Withers e Stax em nossos tempos digitais, enquanto o holandês Grant, em “Better Than Ever”, canaliza a energia de James Brown e da escola Solar num funk radiante sobre resiliência e otimismo rítmico. Na sequência, o resgate de “What’s Going On” em versão editada para DJs recoloca Marvin Gaye no centro da conversa, lembrando que a black music também é crônica política: a canção nasce da violência policial testemunhada por Obie Benson do Four Tops, das memórias do Vietnã do irmão de Marvin e da insistência do artista em transformar dor coletiva em obra conceitual, unindo jazz, soul e funk num álbum que quebrou as regras da Motown e continua atual. E a frase de Berry Gordy – chefão da Motown – sobre a ideia de produzir “What’s Going On”, mostrou-se um erro do homem que havia acertado tanto com seus artistas. Ao ser apresentado sobre o novo rumo que o artista queria dar ao seu trabalho, ele teria dito: “Marvin, por que você quer arruinar sua carreira?”.

Quando o programa entra no bloco seguinte – com D’Angelo, The Colleagues com October London ( outro fã incondicional de Marvin Gaye ) e Leela James – o clima é de continuidade dessa linhagem: “Brown Sugar”, reforçada pelo edit, reafirma D’Angelo como arquiteto do neo‑soul; “Chocolate Skin” celebra a beleza negra com um crooner contemporâneo apadrinhado por Snoop Dogg; e “Ride” mostra Leela James mantendo vivo o fio que liga o gospel e o southern soul ao R&B moderno, com voz que parece saída dos anos 60 mas produção de hoje.

Do meio para frente, o Jazzmasters mergulha no cruzamento entre pista e contemplação. MF Robots, projeto de Jan Kincaid e Dawn Joseph, aparece em um remix que atualiza o acid jazz dos anos 90 com punch de pista atual, provando que a linguagem Brand New Heavies ainda rende novas formas. Moods, com August Charles, leva o ouvinte para um terreno de soul digital: bateria lo‑fi, texturas quentes e um vocal que transforma “Wildfire” em trilha de filme imaginário, equilibrando nostalgia e modernidade. Girls of the Internet, com Sio, traz o house espiritual de banda, onde o 4×4 vira extensão da tradição soul e jazz, mostrando como a eletrônica pode ser tão orgânica quanto uma gravação de estúdio cheia de músicos.

Na reta final, o set se resolve num arco elegante. The Emotions aparecem como lembrança da era disco em sua forma mais exuberante, com harmonias vocais que moldaram o som das girl groups posteriores. O projeto Output / Input, remixado por Dave Lee, oferece uma aula de boogie de boutique: baixos gordos, metais reluzentes e um vocal de Antonio McLendon que parece invenção de outro tempo, lapidado com olhar de colecionador. Encerrando tudo, Charlotte Day Wilson puxa o freio com “Selfish”: um R&B canadense minimalista, esfumaçado, em que cada silêncio pesa, e que sintetiza a sensibilidade atual – mais íntima, mais autoral, menos preocupada com o hit imediato e mais com a construção de um universo próprio.
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A banda londrina, liderada por Andy Platts, aparece com o single do álbum “Cure The Jones”, de 2022, um disco descrito por críticos como “o trabalho mais completo do grupo”, desenhando linhas diretas entre a sofisticação melancólica de Bill Withers e a tradição da Philadelphia International. “Good Love” é um tributo explícito ao soul setentista: arranjo que poderia estar em um 7” da Stax ou Motown com Marvin Gaye.
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